No final de 2008 e início de 2009 o Senhor nos deu uma palavra rhema* "Eis aqui a terra que Eu pus diante de vós; entrai e possuí a terra que o SENHOR, com juramento, deu a vossos pais e à sua descendência depois deles" (Dt.1:8).
Nesse texto busco refletir sobre o que significa para nós, nos dias atuais e em nossa cidade, o "entrar e possuir a terra".
Na década de 60 o Brasil vivia os anos dourados do crescimento econômico, do ingresso na era do aço e da siderurgia, da revolução cultural e da descoberta dos novos ‘brasis’. A década se inicia com a inauguração de Brasília no dia 21 de abril. O Brasil começa a se perceber como o gigante adormecido que precisa despertar. Uma época de contestação de valores morais e do surgimento de novos atores sociais importantes, como as ligas camponesas que lutavam pela reforma e distribuição de terras. Certamente era um Brasil menos violento, mas tão injusto com seus filhos quanto o Brasil atual.
Foi nessa década, após o golpe militar de 64 que começa uma política de “interiorização” da nação, que antes enxergava apenas o seu litoral. Se antes o Brasil se reduzia às suas praias, agora havia a descoberta do Pantanal, do Cerrado, dos Pampas e da Amazônia. A construção de Brasília e sua interligação rodoviária com as principais cidades do país mudavam a geografia, a percepção, a cultura e a economia do Brasil.
E foi a partir daí que começou a história de um povo chamado por Deus para ocupar uma terra na nação brasileira. Meus avós, como tantos outros avós, viviam num pedacinho do Brasil formado pelo encontro de Minas Gerais com o Espírito Santo e a Bahia. Terra de gente simples, que vivia da lavoura. Pequenos proprietários de terras ou pessoas sem posses, que sonhavam melhorar de vida, crescer, prosperar, construir sonhos e deixar herança para seus descendentes. Assim como meus avós, uma geração de famílias de várias partes do Brasil veio “ocupar a Amazônia”, desbravar o norte, “integrar para não entregar” como dizia o mote da época.
O que se ouvia falar é da terra é que era boa. A esperança era de dias melhores, de prosperidade. Por isso famílias inteiras vieram. O Senhor gerou em seus corações o sonho, pois os sonhos vêm do Senhor. O Senhor gerou em seus corações a esperança, porque a esperança é a nossa vocação. Não a esperança inerte e amorfa, mas a esperança que nos faz despertar do sono e levantar dentre os mortos para resplandecer.
Quando meus avós e a primeira geração chegaram aqui encontraram uma terra bruta, com uma estrada sendo aberta e o ano dividido em 6 meses de muita chuva e lama e 6 meses de estiagem e muita poeira. Tudo estava por ser feito, tudo por ser descoberto, tudo por ser inventado. Vila Rondon surgiu em meados dos anos 60 na margem esquerda do pequeno Ararandeua, fruto do acampamento dos “candangos” que abriam a estrada PA-70 que faria a ligação entre a Belém-Brasília e a Transamazônica. Sua pedra fundamental foi lançada no dia 09 de fevereiro de 1969, pelo médico e sanitarista Camilo Viana, que então chefiava a equipe de universitários do Projeto Rondon, daí o nome do pequeno lugarejo, de Vila Rondon. Nesse mesmo período nasce o “Km 92”, mais tarde denominado Abel Figueiredo, que surgiu na margem esquerda do pequeno rio 92 entre serras e vales. De forma semelhante surge o “Km 66”, depois denominado de Bom Jesus do Tocantins. E surge o “Km Zero”, mais tarde denominado Dom Eliseu, um ponto de interligação no entroncamento da Belém-Brasília com a PA-70, cuja vocação desde o início foi de acolher os filhos sem terra e uni-los a uma terra que já possuía filhos, mas tinha a madre generosa aberta para receber e alimentar novos filhos.
A Palavra de Deus diz que o Senhor estabeleceu os montes e as cidades. Assim, foi o Senhor quem determinou onde cada uma dessas cidades se localizaria. Os homens foram instrumentos para realização de seus propósitos. As paredes da primeira igreja batista da região foram levantadas por meus avós, tios e primos. O domingo era o único dia em que todos se encontravam, vindo de suas possessões, com roças e roçados que estavam sendo feitos e era comum ainda menino vê-los chegar trazendo galinhas, patos e porcos que fariam a alegria na hora do almoço após a escola bíblica dominical. Domingo após domingo, o encontro e a festa se repetiam. E a cada dia aquela geração florescia comprando e vendendo, semeando e colhendo, crescendo e vivendo. Na família eram poucas as mortes e os acidentes, mas eram muitas as esperanças e as conquistas.
Se na família eram poucas as mortes e os acidentes, o mesmo não se podia dizer da cidade e da região, que rapidamente ficou conhecida como “terra sem lei”, “velho oeste da Amazônia”, ‘marabala’, ‘paragobala’ e outros tantos balas que se referiam às mortes violentas pela posse da terra, pelo roubo do patrimônio alheio e pela luta desenfreada para o enriquecimento de alguns e empobrecimento de outros tantos. A terra estava sendo contaminada com o sangue derramado injustamente.
E lá se vão os anos 70 embalados ao som dos daquela corrente pra frente dos 90 milhões em ação. Pra frente Brasil, do meu coração! A primeira geração entrou nesta terra para conquistar seu sonho. Desembainhou o facão e entrou na mata para desbravar a terra. Nesta época a cidade era chamada de ‘terra do futuro’ porque aqui existiam empregos, existiam oportunidades, ‘corria dinheiro’ como era a expressão da época. Mas contraditoriamente, o suspiro dessa primeira geração, ao colocar a cabeça no travesseiro, era “Senhor, dê-nos dinheiro para que voltemos à nossa terra!”. Havia uma melancolia no ar, uma saudade da terra natal, um desejo de voltar. Era como o povo que chorava o tempo do Egito, porque não sabia reconhecer a terra prometida. A melhor forma de expressar sua prosperidade era mandando o filho “estudar fora”. Engraçado relembrar isso tantos anos depois. Aquele povo não se sentia na sua terra prometida, apesar de terem saído de sua terra natal por causa de um sonho gerado por Deus para que fossem prósperos, crescessem, povoassem e dominassem a terra.
Mas os anos 80 começam com a segunda geração no comando (nossos pais). A infraestrutura das cidades é melhorada, Vila Rondon ensaia seus primeiros passos de autonomia e em 1982 se transforma em Rondon do Pará, ao som do RPM, Legião Urbana e sob a crise do petróleo que gerava tensionamento entre os países ocidentais e os árabes. Nessa época a palavra ‘crise’ foi muito falada, no Brasil essa foi considerada a “década perdida”, tragada pela inflação e juros galopantes. Os anos 90 se iniciaram como complemento dessa crise, agora embalada pelas denuncias de destruição da Amazônia. Aqueles que vieram para esta região como heróis, como desbravadores, como gente de oportunidade, agora são transformados em vilões ecológicos, destruidores da natureza, assassinos do meio ambiente. O que existe de verdade e de mentira nessa história e nessa mentalidade?
Por acaso seria o propósito de Deus que em apenas quatro décadas uma região inteira tivesse seus recursos naturais tão comprometidos que agora a economia já estava declinando a tal ponto dos filhos dos filhos não encontrarem oportunidades de trabalho e renda? Certamente que não. E a partir da palavra rhema de “entrai e possuí a terra” eu entendo hoje que aquela primeira geração de fato não entrou para possuir a terra, apenas peregrinou na terra como forasteira, suspirando para voltar ao seu ponto de origem. A mentalidade não era de conquistadores, mas de saqueadores, porque o bom não era ser daqui, mas de lá. Tudo que era daqui era ruim, mas o que era de lá era bom. Para a terra de onde tiravam o sustento, as palavras não eram de bênçãos. Quantas vezes ouvi ainda criança esses suspiros e esses lamentos...
Foi ainda no final dos anos 80 que a segunda geração, agora acompanhada da terceira geração, começou a migrar para os Estados Unidos, que se transformou no ‘eldorado’. Ali sim era a terra prometida, onde manava leite e mel. Ali sim se podia trabalhar e conquistar o bem comum. Talvez nossos avós tivessem errado o endereço, não conseguiram ver bem o caminho do mapa que Deus lhes indicara e acabaram vindo parar aqui na Amazônia. Mas agora sim, chegou a nossa vez, chegou a nossa hora... Rondon do Pará se tornou num dos municípios com maior índice de emigração ilegal para os Estados Unidos. Mais de 2.000 pessoas oriundas desta cidade entraram ilegalmente naquele país.
Os anos 90 aprofundaram essa dinâmica regional exportadora de mão-de-obra ilegal internacional. Se na economia o Brasil começou com instabilidade e confisco da poupança, alguns anos depois o real surgiria para gerar um tempo de prosperidade. E aqui na cidade uma falsa prosperidade começou a ser vivida, regada a centenas e milhares de dólares que começaram a entrar, muitos deles oriundos de atividades de prostituição que promoveram o ‘boom’ da construção civil, com a construção de muitos prédios de boa qualidade, o fortalecimento do comércio local, mas os empregos se tornaram mais escassos com a migração das industrias madeireiras para novas frentes de ocupação, na repetição do réquiem anunciado da destruição da Amazônia. Uma nova geração começou a se formar nos anos 90, daqueles nascidos nesta terra, que já não tinham mais saudade de lá, por nasceram cá. Mas concomitante com isso, uma geração também começou a ser formada à sombra de seus pais que estavam nos Estados Unidos. Muitas famílias foram desestruturadas e muitos filhos cresceram sem a presença paterna ou materna.
Os anos 2000 são o tempo dessa terceira geração. Muitos estão na faculdade, outros buscam seu espaço e construir sua história. Alguns episódios tristes na luta pela posse da terra ainda mancham o solo já contaminado com tanto sangue derramado. É esse o tempo que estamos vivendo e a primeira geração dos filhos desta terra agora está com a idade entre vinte a vinte e nove anos. Superamos a primeira metade desta década ao som dos bips dos aparelhos celulares e das ondas cibernéticas. Estamos agora no limiar de sua segunda metade e esta geração estará escrevendo sua história até 2020. Os próximos dez anos ainda serão vividos por esta geração na preparação da geração que escreverá a história das décadas seguintes.
E é aqui que estamos. Esta é a nossa Cades-Barnéia. Aqui precisamos nos relembrar das promessas e do que o Senhor fez a nossos antepassados e a nossos pais. É tempo de relembrar a história dos nossos pais. Na história do povo de Deus, depois de passarem quatrocentos anos em escravidão na terra do Egito (caldeirão de fundir o ferro), o Senhor os liberta com mão forte e três gerações peregrinam pelo deserto. Agora a quarta geração estava ali diante da terra prometida, no alto dos montes entre Parã e Di-Zaabe. Três gerações haviam se perdido porque não entenderam a promessa, não receberam a promessa e não viveram a promessa.
É preciso pensar um pouco sobre as três gerações que se perderam. Foram gerações que saíram da escravidão do Egito e partiram rumo a terra prometida. Foram gerações que presenciaram muitos milagres e acontecimentos sobrenaturais. Deus foi à frente dessas gerações e lutou a favor deles, diante dos seus próprios olhos. Deus os carregou, como um pai carrega seu filho, por todo o caminho que percorreram até chegarem a Cades-Barnéia. Porém, quando Deus os mandou entrar e tomar posse da terra prometida, eles deixaram de enxergar a promessa e olharam para as circunstâncias. “A terra não é boa, não tem nada nessas cidades, a região é violenta, é difícil. É muita lama e muita poeira, as estradas são ruins, não tem energia elétrica, faltam empregos e renda, o prefeito não faz nada, as serrarias estão indo embora, isso aqui vai acabar virando uma cidade fantasma”.
Isso irou ao Senhor que jurou “Ninguém desta geração má verá a boa terra que jurei dar aos seus pais, exceto Calebe, filho de Jefoné. Ele a verá, e eu darei a ele e a seus descendentes a terra em que pisou, pois seguiu o Senhor de todo o coração”. E assim toda uma geração se perdeu. Mas restaram Calebe e Josué, para prepararem e entrarem com a quarta geração e tomar posse da terra prometida.
Em 2009 se inicia um novo ciclo. O ciclo de construção. Para isso o Senhor nos diz “Eis aqui a terra que EU pus diante de vós; entrai e possui a terra que o SENHOR, com juramento, deu a vossos pais... e à sua descendência depois deles... mas a terra que passais a possuir é terra de montes e de vales; da chuva dos céus beberá as águas”. A primeira indagação que nos vem à mente é “como vou entrar na terra se já estou dentro dela?”. E a segunda indagação, que segue a primeira, é “como vou construir numa terra que não me pertence, já que eu não tenho nenhum pedaço de terra?!”. E a resposta para ambas é a mesma: de fato as gerações que nos antecederam entraram na terra, mas não tomaram posse dela.
Em primeiro lugar é preciso tomar posse da terra. Isso implica numa mudança cultural que somente a quarta geração está preparada para entender, porque não experimentou as delícias dos pratos contaminados do Egito nem peregrinou pelo deserto. A essa geração é lançado o desafio de tomar posse da terra. Tomar posse pressupõe sentir-se territorializado, sentir-se pertencido e pertencente, é sentir-se parte desta terra. Tomar posse da terra também pressupõe conhecer e reconhecer a promessa que Deus fez aos seus antepassados e dispor-se a conquistar a terra, sem ser apenas um forasteiro ou errante pela terra.
Só toma posse quem se entende como legítimo herdeiro, detentor de legalidade, possuidor da unção de conquista. Porque o herdeiro é diferente do forasteiro. Enquanto o forasteiro não cuida da terra, não projeta o futuro, é passageiro, só colhe ou recolhe e não se importa; o herdeiro é permanente, conhece e cuida da terra, projeta o futuro, investe, planta e colhe e se importa com o destino da sua terra.
Para tomar posse é preciso compreender o propósito de Deus para a conquista. Por que ou para quê estaria o Senhor interessado na conquista de um território ou de um povo? Faria alguma coisa o Senhor que não tivesse um propósito? Decerto que o propósito do Senhor é que sejamos luzes para as nações, nação sacerdócio, povo santo e eleito, separado para abençoar outros povos. É aqui nessa parte da Amazônia que o Senhor nos trouxe, nos estabeleceu e hoje nos desafia a construirmos os rudimentos que irão expressar os seus estatutos e as suas leis, pois Ele estará interessado em se derramar sobre um povo. Sejamos nós esse povo, forjado para a conquista, para quem hoje o Senhor ordena: entrai e possuí a terra! É pelo exercício do dom profético que ficaremos conhecendo o destino e o propósito de Deus para nossas cidades.
Não podemos simplesmente conclamar a nossa cidade a que se arrependa sem convocá-la também a realizar o eterno propósito de Deus para ela. Segundo um princípio psicológico, quem oferecer mais esperança aos homens conquistará maior autoridade. Devemos buscar a paz da cidade e nos dispormos a fazer a obra de restauração dos seus muros, usando nossa autoridade em Cristo Jesus. É nessas cidades que foram criadas instituições para exercerem funções a serviço da sociedade, tais como o sistema político (a Prefeitura, a Câmara de Vereadores, o Fórum, a Polícia etc.), o sistema econômico (o Mercado Municipal, as lavouras, as empresas, os agentes financeiros etc.), o sistema cultural (as Escolas, os Clubes e espaços de lazer etc.) e o sistema religioso, entre outros. Essas instituições foram criadas para o bem comum das pessoas, mas Satanás tenta dominá-las para influenciar a sociedade e assumir o controle de tudo, transformando-as em extensões do seu reino. Isaías e Jeremias são exemplos para nós de homens que entenderam o propósito de Deus para sua geração e ambos passaram a denunciar a natureza, amplitude e profundidade do pecado de Israel, o “pecado corporativo”, a situação pecaminosa dos sistemas sociais ali existentes, como o sistema econômico e o sistema religioso.
É hora de, despertos do sono da ignorância, do descaso, da omissão e da falta do pleno conhecimento do poder libertador do Evangelho, nos levantar, para restaurar as muralhas assoladas. Mas lembremo-nos, só constroem muralhas aqueles que são herdeiros da terra!
* palavra rhema: Na língua em que o Novo Testamento foi escrito (grega) existem dois vocábulos que significam “palavra”, são eles: logos e rhema. O logos representa a palavra de Deus escrita, ou o conhecimento daquilo que Deus disse e foi registrado. O rhema, por sua vez, é usado para representar o sentido pessoal que o logos assume para um indivíduo ou grupo em particular. Nós entendemos e recebemos o rhema como uma direção específica que o Senhor dá a seus servos específicos, para o cumprimento de propósitos específicos.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
O rhema e Rondon do Pará
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