Introdução
Feitos à imagem e semelhança de Deus, todos nós apesar de sermos prisioneiros do tempo (kronos), temos um encontro com a eternidade (aion, aionios). Isso porque apesar da habitarmos um corpo mortal, que se corrompe a cada dia, temos em nós o espírito eterno que nos foi dado por Deus. Isso nos torna uma espécie diferente de todas as outras criadas, que transita entre a finitude do tempo cronológico e a infinitude da eternidade para a qual fomos criados.
1. Prisioneiros do passado
Existem pessoas que são prisioneiras do passado, que trazem em sua alma as marcas de traumas da infância, da adolescência, da juventude e são movidas por circunstâncias que o diabo originou manipulando seu ambiente familiar e seus relacionamentos afetivos. Essas pessoas podem ter uma vida inteira com limitações auto-impostas resultantes dessas circunstâncias, apesar de terem a possibilidade de reescrever sua história quando identificam essas limitações e sobrepujam esses traumas. Nesse aspecto, o perdão sempre assumiu um papel central na vida cristã. Somos ensinados a perdoar, assim como fomos perdoados pelo Pai Celestial (diante do qual não há inocentes, pois todos pecaram e foram destituídos da glória de Deus). Libertar-se do passado é perfeitamente possível e muitos têm sido libertos, através da cruz, readquirindo as condições necessárias para viver uma vida plena.
2. Prisioneiros do futuro
Mas existe a prisão do futuro. E essa tem sido muito bem planejada, arquitetada e preparada por satanás para manter as pessoas prisioneiras, como marionetes sendo manipuladas num jogo que ele gosta de jogar tendo como aliados vários conceitos que o mundo criou e que os cristãos infelizmente ainda consomem sem perceber.
A Parábola do rico e o celeiro, que Jesus deixou registrada em Lucas 12:16-21 conta a tragédia de um homem rico que construiu para si um celeiro a fim de juntar todos os seus bens, de modo que pudesse desfrutar com “tranquilidade” o seu futuro. É preciso conhecer melhor a alma desse homem e a armadilha que o tornou refém da avareza e de uma prisão do futuro.
Seria aquele homem rico prisioneiro de circunstâncias do passado, possivelmente de uma origem familiar de pobreza e escassez que lhe tornou num empresário rural avarento e prisioneiro de suas inseguranças acerca do futuro, tornando-se assim dupla e tragicamente prisioneiro? É possível que sim. Muitas pessoas vivem essa tragédia e desenvolvem comportamentos limitantes, como comedores gulosos, consumidores vorazes e viciados no trabalho (workaholic), entre outros.
Mas nesta parábola Jesus nos fala de um homem que está com sua alma satisfeita, que aparenta despreocupação com o seu futuro porque ele lhe parece muito agradável e sua sensação e esperança é de que seu futuro seja longo. Aquele homem trabalhou para o futuro, juntou para o futuro, focou suas forças, sua vida no futuro. Jesus disse que “seu campo produziu com abundância”, o que denota empenho e dedicação no que fez, ou seja, trabalho árduo.
A verdadeira tragédia daquele homem é que o futuro não lhe pertencia, como não nos pertence. E no futuro o próprio Deus, que é o Senhor do tempo e da eternidade lhe pediria contas de seu tempo presente, de como viveu sua vida. Sim, porque se o passado não volta atrás, o futuro não nos pertence, porque ao Senhor pertence, mas há algo que nos pertence, que nos foi dado pelo Senhor, que é o tempo presente, para realizarmos a boa obra das nossas vidas.
3. Vivendo a Glória do Tempo Presente
Em II Coríntios 6:2 a Palavra de Deus nos diz que o Senhor nos ouve no tempo da oportunidade, nos socorre no tempo da salvação e que o “agora” é o tempo sobremodo oportuno, o dia da oportunidade e da salvação.
Geralmente essa passagem é citada no contexto da necessidade de salvação, da pessoa receber Jesus como Senhor da sua vida. Mas se confrontarmos esse texto com outras passagens bíblicas, veremos que ele nos fala também de um tipo de conduta, de um tipo de comportamento que o Senhor espera dos seus filhos, do seu povo. Um comportamento de liberdade do passado e do futuro, com enfoque no tempo da eternidade que é o “agora”, pois é no tempo presente que lançamos as sementes da eternidade. Salmo 118:24 diz “Este é o dia que o Senhor nos deu, alegremo-nos e regozijemo-nos nele”. Em Eclesiastes 9 e 11 somos ensinados a viver os dias da nossa juventude, e todos os dias da nossa vida, com contentamento e prazer. Como isso pode ser possível diante de tantas dificuldades, vicissitudes e problemas que enfrentamos?
Vamos olhar para o homem rico que construiu o celeiro para viver uma velhice com tranquilidade. Hoje nós vemos esse mesmo tipo de comportamento se repetindo na vida das pessoas, independente de serem cristãos ou não. Por exemplo, o mundo criou um sistema que nos motiva a pagar pela seguridade social por longos e longos anos da vida, para em nossa velhice desfrutarmos da aposentadoria; mas frequentemente a velhice é sinônimo de gastos com remédios, dificuldades na saúde e abandono. Os planos de saúde são o segmento que mais lucram no mundo atualmente porque fazem o terrorismo com o futuro, vendendo saúde e cobrando por doença, aliás deveriam ser chamados de “plano de doença”, já que não nos servem quando estamos com saúde. Outra novidade é que agora você paga antecipadamente pelo “descanso eterno” comprando seu jazigo num cemitério especialmente projetado para isso. Enfim, as pessoas se matam de trabalhar por um futuro que lhes parece incerto. Enquanto isso, no tempo presente, são lhes roubadas as horas de descanso, de lazer, de dedicação aos filhos, à família e ao serviço cristão.
Essa é a tragédia, o drama real, porque a estratégia de satanás é fazer com que fiquemos tão ansiosos com o futuro que nos esqueçamos de lançar as sementes de hoje. Como diz Eclesiastes 11:1 “lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás. Reparte com sete, e ainda com oito, porque não sabes que mal sobrevirá à terra”. Quem olha para o futuro, esperando o tempo propício, adiando as decisões e as atitudes que precisa adotar, age como aquela pessoa do verso 4 “quem somente observa o vento, nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca colherá”. As sementes são o maior e o melhor mistério da criação, pois cada pequena semente traz dentro de si a possibilidade do futuro, através da colheita. Ao contrário disso, somos frequentemente tentados a projetar as boas intenções para o amanhã e as más atitudes para o hoje.
Mas hoje é o tempo da oportunidade. Plante boas sementes hoje, semeie hoje, goze os prazeres lícitos de sua vida hoje. Isso não significa ser indolente, preguiçoso, pródigo ou irresponsável, pois o verso 6 do capítulo 11 de Eclesiastes diz “semeia pela manhã a tua semente, e à tarde não repouses a tua mão, porque não sabes qual prosperará; se esta, se aquela, ou se ambas igualmente serão boas”. Esse ensinamento equivale a dizer: Faça tudo o que você tem que fazer da melhor forma possível (verso 10 do capítulo 9) e não deixes de gozar os prazeres que Deus te deu (verso 9 do capítulo 9). Porque é exatamente o que satanás mais teme é um homem ou uma mulher zelosos com seus deveres, cumpridores de suas obrigações e que vivem sua vida com alegria e temperança, crendo que o Senhor lhes dará um final melhor do que o desejado, que os últimos dias serão melhores que os primeiros, conforme Ele promete em sua palavra.
Conclusão
Recebemos um rhema que nos diz que na terra que o Senhor nos daria como herança, beberíamos da chuva do céu e não das águas do Nilo. A nossa terra bebe das águas dos céus, pois é do Senhor que vem a nossa prosperidade. As águas dos céus representam a nossa aliança com o Senhor, uma aliança sem temor, com amor, com disponibilidade para possuir a terra cada dia, para semear na terra a cada dia, mesmo que a terra esteja seca e tórrida, mesmo que as circunstâncias não sejam propícias, pois é do Senhor que vem a nossa força.
Faça hoje ou renove hoje sua aliança com Ele, libertando-se dos traumas do passado e da prisão do futuro, vivendo o “agora” como o tempo propício e de salvação, pois a sua promessa para o justo é de que “na velhice darão frutos e serão cheios de seiva e verdor” (Salmo 92:14) e de que teremos um final melhor do que desejamos e esperamos (Jeremias 29:11).
O Senhor te abençoe e te guarde!

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