quinta-feira, 30 de julho de 2009

Princípios e aspectos organizacionais de uma rede social

Nesse texto fiz uma compilação da formulação de diversos cientistas sociais, facilitadores e educadores ambientais que têm teorizado e compartilhado suas experiências em redes sociais, o novo fenômeno da pós-modernidade.


O texto foi apresentado durante o Encontro de Educadores Ambientais da Região do Carajás, no Pará, e teve como objetivo fornecer subsídios para constituição da Rede de Educadores Ambientais e Agentes de Desenvolvimento Local do Carajás.


A bibliografia, ao final, além de registrar os créditos, também serve como um fio condutor para quem se interessa em aprofundar no tema.


O QUE É REDE?


Uma rede é uma costura dinâmica de muitos pontos, é uma forma de organização capaz de reunir pessoas e instituições em torno de objetivos comuns, primando pela flexibilidade, dinamismo, democracia e descentralização na tomada de decisões, com alto grau de autonomia de seus membros e horizontalidade das relações entre seus elementos.


CARACTERÍSTICAS FUNDAMENTAIS DE UMA REDE

A rede tem características específicas, que a distinguem de outros tipos de estruturas organizativas, que são:


· Autonomia das pessoas e instituições que compõem a rede;


· Horizontalidade das relações entre seus componentes;


· Cooperação como modo de trabalho; e,


· Interação na constante troca de informações.


Essas características se desdobram em diversos aspectos que produzem a identidade da rede, dentre os quais podemos destacar:


1. CONECTIVIDADE


A conectividade é um aspecto de ligação e interligação entre os integrantes da Rede. Esse princípio é fundamental, pois quanto maior for a participação e conectividade dos seus membros, mais efetiva será a Rede. Neste contexto, cada membro é desafiado a fazer novas conexões. A conectividade e a participação dos membros nas ações da rede são o suporte para seu fortalecimento e credibilidade.


2. AUTONOMIA


Cada indivíduo torna-se membro da rede por vontade própria, essa vontade é fruto do desejo individual de integrar um projeto coletivo que, apesar de seu caráter coletivo, mantém a independência dos membros em relação à rede e aos demais membros. Isso condiciona o estabelecimento das regras que orientam os relacionamentos no interior da rede. Também acentua relações igualitárias de membros empoderados entre si, pois cada participante tem sua governabilidade e nível de poder já estabelecido.


3. DESCENTRALIZAÇÃO


Uma rede não tem centro, pois não tem poder concentrado. No processo relacional entre seus membros, cada ponto é um centro virtual da rede de onde podem convergir todas as ações e brotar as decisões. Esse processo produz a descentralização. Numa rede há investimentos de confiança e poder no participante do sistema, qualquer que seja ele.


4. HORIZONTALIDADE


Entre os membros da rede não existe hierarquia, já que a autonomia de cada um é preservada e sua adesão à rede é voluntária. Isso garante a desconcentração do poder. A isonomia, ou seja, o tratamento igual para todos, é um dos fatores inibidores de hierarquia dentro da rede.

Quando a realização de um objetivo depende do engajamento consciente de todos na ação, o comando e controle do que os outros fazem ou deixam de fazer torna-se secundário: tem que se contar é com a lealdade dos membros para com todos, baseada na co-responsabilidade e na capacidade de iniciativa de cada um, e a organização pode ser feita numa estrutura em rede, horizontal.


5. COOPERAÇÃO


É um aspecto de trabalho coordenado entre parceiros que são iguais entre si, e regidos pelo mesmo conjunto de regras e procedimentos. A cooperação é um modo de operação e também um valor que deve ser compartilhado por todos na rede. A participação em redes não requer qualquer habilidade especial, a não ser a predisposição a cooperar. A cooperação gera dinamismo, o que faz com que a rede seja uma estrutura em movimento permanente.


6. INFORMAÇÃO


As informações são elos básicos, fios e tessituras que dão consistência a uma rede, elas transitam pelos canais que interligam seus integrantes. Por não existir centro nem hierarquia entre seus membros, há liberdade na circulação de informações, bem como na intercomunicação horizontal, que são exigências essenciais para o bom funcionamento de uma rede. Todos os membros devem ter acesso a todas as informações que nela circulam pelos canais que os interliguem.


7. RESPEITO À DIVERSIDADE


A preservação da autonomia de cada um leva ao respeito à diferença e à diversidade. Cada membro da rede é um ser autônomo que prima por sua individualidade e pela diferença que esta representa. A rede é uma espécie de contrato de interdependência, que preserva a autonomia de cada um no interior do sistema.

A razão de existir da rede é um conjunto de propósitos comuns a todos os participantes. Em geral, esse conjunto de propósitos incorpora também um conjunto de valores e objetivos comuns. Participar de uma rede implica, portanto, compartilhar dos mesmos propósitos, valores e objetivos comungados pelos integrantes da rede.


8. DEMOCRACIA


A democracia é um aspecto que valoriza a liberdade de opinião, e negociação e a construção coletiva. Sem democracia não há rede, pois não há outra forma de se tomar decisões e de solucionar conflitos dentro de uma rede senão pela democracia. Como na rede não se estabelece hierarquia, a democracia propicia ambiente favorável à distribuição de tarefas em níveis diferentes de responsabilidade, com vistas à realização dos objetivos perseguidos. O grau de democracia de uma rede é medido pela liberdade para entrada e saída de membros e pela livra circulação de informações, sem censuras ou manipulações.


COMO ORGANIZAR A REDE


O PROJETO DA REDE


O primeiro passo para se organizar uma rede formal é identificar claramente seu objetivo, ou seja, o que visam alcançar os que querem assim se organizar.


DEFINIR ATRIBUIÇÕES E LEGITIMAR REPRESENTAÇÃO


Em uma rede todos são iguais, todos têm iniciativa, todos são sujeitos de sua ação, guardam sua liberdade e são co-responsáveis pela ação da mesma. Para que a rede funcione é necessário que haja a distribuição de funções. Os integrantes da rede têm que saber a quem enviar informações e como as enviar, assim como a quem pedir informações e como pedi-las.

Uma rede supõe, portanto, algum tipo de serviço que facilite essa circulação, por exemplo, um secretariado ou um conjunto de secretariados interligados, cuja função é de facilitação da intercomunicação – e não de direção, comando ou coordenação da rede – não lhes sendo atribuído, portanto, o poder de controlar, esconder, hierarquizar, selecionar, censurar ou orientar informação que deva circular.

Tais secretariados, que “servem” à rede, devem ter seu poder legitimado pelos seus participantes. Ou seja, têm que ser aceitos ou escolhidos e “sustentados” materialmente, direta ou indiretamente, por eles.


SUPORTE SISTEMÁTICO


A circulação de informações supõe também algum tipo de suporte sistemático – escrito, gráfico, auditivo ou informatizado – que faça chegar a informação ao conjunto de participantes, no ritmo, freqüência, linguagem e modo estabelecido de comum acordo por eles.


LIVRE CIRCULAÇÃO DE INFORMAÇÕES


Se algum participante quiser fazer uma proposta de ação conjunta, esta deverá circular por toda a rede como qualquer outra mensagem. A organização da ação conjunta proposta caberá àqueles que assumirem, sem que haja obrigatoriedade de participação dos demais.


ENCONTROS PRESENCIAIS


Os participantes de uma rede podem se encontrar pessoalmente e se reunir sempre que o considerarem necessário ou possível – para debater questões ou mesmo simplesmente festejar. Dependendo das dimensões da rede, tais encontros podem ser elemento importante – e mesmo decisivo – de sua consolidação, pelas relações interpessoais de amizade que assim se estabelecem. Nenhuma reunião desse tipo pode ter, no entanto, caráter deliberativo para o conjunto de participantes da rede. Quaisquer deliberações só vinculam aqueles que a tenham assumido.


LIVRE CIRCULAÇÃO DE MEMBROS


Uma rede está sempre aberta para a entrada de novos membros que aceitem as regras de intercomunicação estabelecidas, ainda que as mesmas possam e devam ser revistas à medida que a rede alcance seus objetivos defina novos objetivos. O auto-desligamento de qualquer de seus membros não deve, por outro lado, constituir problema, para que se assegure a plena liberdade de opção de cada um.


Bibliografia:


Redes e desenvolvimento local. Cássio Martinho: AED, Revista Aminoácidos, nº. 1, 2001.

O projeto das redes: horizontalidade e insubordinação. Cássio Martinho: AED, Revista Aminoácidos, nº. 2, 2002.

A rede como fábrica de possibilidades. Cássio Martinho: AED, Revista Aminoácidos, nº. 5, 2003.

Introdução às Redes. Cássio Martinho, texto na internet: cassiomartinho@aed.org.br

Rede: Uma estrutura alternativa de organização. Chico Whitaker, CEDAC, Revista Mutações Sociais, ano 2, nº. 3, março a maio 1993.

Construindo uma comunidade de prática em DLIS. Texto apresentado por ocasião do II Encontro de Projetos PNUD e Parceiros em Desenvolvimento Local Integrado Sustentável – DLIS; Brasília, 2 e 3 de dezembro de 1999.

A prática da gestão de redes: uma necessidade estratégica da sociedade da informação. Ana Cristina Fachinelli, Christian Marcon e Nicolas Moinet. Publicado na Revista Com Ciência.

Rede de Microempresas e trabalhador empreendedor. Pedro Cláudio Cunca Bocayuva. FASE-RJ. Texto produzido para o seminário sobre desenvolvimento local integrado e sustentável da Agenda Social Rio, agosto de 1999.

A Revolução das Redes: a colaboração solidária como uma alternativa pós-capitalista à globalização atual. Euclides André Mance, IFIL, dezembro de 1998.

sábado, 23 de maio de 2009

Meu Video do Dia Internacional de Historias de Vida

No Dia Internacional de Histórias de Vida participei da audição que o Ponto de Cultura COMVIDA realizou através da COMVIDA FM. Junto com mais 2 amigas e companheiras de jornada, resgatamos um pouco da memória da cidade e da região através de nossas histórias individuais.

É muito interessante essa iniciativa de organizações de várias partes do planeta, pois todas as pessoas têm um papel na sua comunidade, ouvir as suas histórias é uma forma de promover a integração pessoal e social, é uma forma de promover a identidade e memória coletiva.


Veja o vídeo de introdução da audição. Depois postarei outro vídeo com meu depoimento.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

DEPRESSÃO MUNDIAL, UMA VISÃO DE LONGO PRAZO

Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista. Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita.


Immanuel Wallerstein - La Jornada

A depressão já começou. Alguns jornalistas, um tanto constrangidos, seguem perguntando aos economistas se talvez não estejamos só entrando numa mera recessão. Não creia neles nem por um minuto. Já estamos no começo de uma depressão mundial de grande envergadura com desemprego maciço em quase todas as partes. Pode assumir a forma de uma deflação nominal clássica, com todas as suas conseqüências para as pessoas comuns. É um pouco menos provável que assuma a forma de uma inflação galopante, que é somente uma outra forma de derrubar valores, inclusive pior para as pessoas comuns.

É claro que todo mundo se pergunta o que disparou essa depressão. Serão os derivativos, que Warren Buffett chama de "armas financeiras de destruição em massa"? Ou são, por acaso, as hipotecas subprime? Ou os especuladores do petróleo? Julgar culpas não tem importância real. Isso é concentrar-se na poeira, como dizia Fernand Braudel, dos eventos de curta duração. Se quisermos entender o que está ocorrendo necessitamos lançar um olhar amplo para outras temporalidades, que são muito mais reveladoras. Um é o dos vai-e-vens cíclicos de média duração. O outro é aquele das tendências estruturais de longa duração.

A economia-mundo capitalista teve, durante vários séculos, pelo menos duas formas de vai-e-vens cíclicos. Uns são os chamados ciclos de Kondratieff, que historicamente teriam uma duração de 50-60 anos. E outros são os ciclos hegemônicos, que são muito mais longos.

Em termos de ciclos hegemônicos, os EUA foram um adversário dessa hegemonia nos idos de 1873; conseguiu sua hegemonia depois de 1945 e vem declinando desde os anos 70. As loucuras de George W. Bush transformaram esse declínio lento em precipitado. E agora já estamos longe de qualquer retomada da hegemonia estadunidense. Entramos, como acontece normalmente, num mundo multipolar. Os EUA permanecem como potência forte, talvez a mais forte, mas continuará declinando em relação a outras potências, nas próximas décadas. Não há muito o que alguém possa fazer para mudar isso.

Os ciclos de Kondratieff têm uma temporalidade diferente. O mundo saiu da última fase B do ciclo Kondratieff em 1945, e então o retorno mais forte à fase A vem ocorrendo, na história do sistema-mundo moderno. Chegou ao seu clímax por volta de 1967-1973, e começou o seu descenso. Esta fase B foi muito mais longa que as fases B anteriores e seguimos nela.

As características de uma fase B de Kondratieff são bem conhecidas e coincidem com o que a economia-mundo vem experimentado desde os anos 70. As taxas de lucro nas atividades produtivas baixam, especialmente naqueles tipos de produção que tenham sido mais rentáveis. Em conseqüência, os capitalistas que desejem níveis de lucro realmente altos se inclinam para o setor financeiro, e se envolvem no que basicamente é especulação. Para que as atividades produtivas não se tornem tão pouco rentáveis, têm de mudar-se das zonas centrais para outras partes do sistema-mundo, negociando custos menores de transação com mão-de-obra mais barata. É por isso que começam a desaparecer os empregos em Detroit, Essen e Nagoya, e a se expandirem nas fábricas da China, da Índia e do Brasil.

Quanto às bolhas especulativas, algumas pessoas sempre fazem muito dinheiro com elas. Só que cedo ou tarde as bolhas especulativas sempre arrebentam. Se se pergunta por que essa fase B do ciclo Kondratieff durou tanto, é porque os poderes existentes - o Departamento do Tesouro e o Federal Reserve (Banco Central) norte-americanos, o FMI e seus colaboradores na Europa ocidental e Japão - intervieram regularmente no mercado e de maneira importante para ajudar a economia-mundo - em 1987, quando a bolsa despencou; em 1989, no colapso do crédito e das poupanças nos EUA; em 1997, com a queda das bolsas na Ásia oriental; em 1998, pelas mãos dos chamados Long Term Capital Management, um fundo Hedge de capitais de longo prazo; em 2001-2002, com Enron. Com base no que aprenderam com as lições das fases B anteriores de Kondratieff, os poderes existentes pensaram que podiam vencer o sistema. Mas há limites intrínsecos para fazer isto. E agora chegamos neles, como Henry Paulson e Ben Bernanke o estão aprendendo para sua vergonha e talvez assombro. Desta vez não será tão fácil, provavelmente será impossível, evitar o pior.

No passado, uma vez que a depressão dava rédea solta a seus estragos, a economia-mundo se levantava com base nas inovações que podiam ser quase monopolizadas por um tempo. Assim, quando se diz que o mercado financeiro voltará a levantar-se, é isso o que se pensa que ocorrerá, agora como no passado, depois de as populações do mundo sentirem todo o estrago causado. E talvez em alguns poucos anos assim seja.

Há, contudo, algo novo que pode interferir nesse belo padrão cíclico que tem sustentado o sistema capitalista por uns 500 anos. As tendências estruturais podem interferir nas tendências cíclicas. Os traços estruturais básicos do capitalismo como sistema-mundo operam mediante certas regras que podem ser traçadas num gráfico como um equilíbrio em movimento ascendente. O problema, como acontece com todos os equilíbrios estruturais de todos os sistemas, é que com o tempo as curvas se movem para muito além do equilíbrio e se torna impossível regressar ao ponto anterior.

O que se fez para que o sistema tenha se tornado tão distante do equilíbrio? Grosso modo, o que ocorre é que, ao longo de 500 anos, os três custos básicos da produção capitalista - pessoal, insumos e impostos - têm subido constantemente no percentual dos preços possíveis de venda, de tal modo que hoje se tornou impossível obter grandes lucros da produção quase monopolizada que sempre foi a base da acumulação capitalista significativa. Não é porque o capitalismo esteja falhando no que faz melhor. É precisamente porque o está fazendo tão bem que finalmente minou a base para acumulações futuras.

Quando chegamos a esse ponto o sistema se bifurca (na linguagem dos estudos de alta complexidade). As conseqüências imediatas são uma turbulência altamente caótica, que nosso sistema-mundo está experimentando neste momento e que seguirá experimentando por uns 20-50 anos. Como todos apostam na direção que pensam ser a mais imediatamente adequada para sua perspectiva, emergirá uma ordem de caos numa das veredas dos muitos caminhos alternativos diferentes.

Podemos assegurar com confiança que o presente sistema não sobreviverá. O que não podemos predizer é qual nova ordem será escolhida para substituí-lo, porque esta será o resultado de uma infinidade de pressões individuais. Mas cedo ou tarde um novo sistema se instalará. Não será um sistema capitalista, mas pode ser algo muito pior (ainda mais polarizado e hierárquico) ou algo muito melhor (relativamente democrático e relativamente igualitário) que o atual sistema. Decidir um novo sistema é a luta política mundial mais importante de nossos tempos.

E, quanto às perspectivas imediatas de curta duração, ad interim, é claro o que ocorre em todas as partes. Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista (esqueça-se da chamada globalização). Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição populista conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita. E nos movemos em direção a conflitos sociais agudos no interior de alguns estados, à medida que todo o passa a competir por uma fatia menor do bolo. No curto prazo, não é, de modo algum, um panorama agradável.

Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano, um dos teóricos da Teoria do Sistema Mundial (de onde vem a expressão Sistema-Mundo) e pesquisador sênior da Universidade Yale. É autor de Sistema Mundial Moderno, de 1974.

Tradução: Katarina Peixoto

sábado, 27 de setembro de 2008

CONSTRUINDO A “Matriz FOFA” COMO PARTE DO PLANEJAMENTO ESTRATEGICO

A “Matriz FOFA” é um instrumento metodológico basico e popular para análise de projetos, organizações ou de ator social que se propõe a planejar, diagnosticando sua situação e preparando propostas de ações estratégicas.

Este instrumento tem sido utilizado com êxito por organizações de pequeno porte (associações, sindicatos, igrejas etc), projetos de médio alcance, movimentos sociais diversos e agências multilaterais.

Recomenda-se que seja conduzido por um moderador com experiência em moderação de atividades grupais e pode ser utilizado em grupos de vários tamanhos em diferentes situações de análise e decisão.

Também é recomendável, quando possível, que seja utilizado como ferramenta num processo de planejamento estratégico situacional mais amplo, uma vez que pela sua simplicidade, não permite uma análise profunda dos problemas detectados pelo ator que planeja, gerando uma matriz situacional superficial e uma matriz normativa de ações a serem executadas pelo ator que planeja.

A vantagem desta ferramenta está em sua simplicidade para gerar critérios que norteiam a tomada de decisões e sistematizam o planejamento de ações.

A “Matriz FOFA” é realizada em dois momentos distintos e subseqüentes. No primeiro momento analisando a situação e no segundo momento gerando propostas de intervenção sobre os fatores identificados.

1º Passo: Deve estar claro quem é o ator que planeja, ou o projeto que está sendo analisado, seus objetivos e sua missão.

2º Passo: Identificar os fatores positivos e negativos que interferem nos objetivos ou na missão do ator que planeja, classificando-os em internos e externos. Essa identificação deve ser catalogada numa matriz 4 por 4, de modo que seja visualizada facilmente por quem está planejando.

Os fatores internos são classificados como Fortalezas e Fraquezas. São aqueles fatores controláveis pelo ator que planeja, estando sob sua responsabilidade.

Os fatores externos são classificados como Oportunidades e Ameaças. São aqueles decorrentes do ambiente ou de outros atores sociais, não estando sob responsabilidade direta - ou sob governabilidade - do ator que planeja.

É muito importante compreender a diferença entre fatores internos e externos, pois todo diagnóstico objetiva um bom planejamento, e fatores internos podem ser fortalecidos ou eliminados e fatores externos podem ser aproveitados ou evitados.

Concluída esse momento inicial de análise da situação, deve-se então preparar o Plano de Ação com as propostas de ações que incidirão sobre os fatores identificados.

3º Passo: Preparar uma matriz de ações a serem empreendidas, considerando-se que:
As FORTALEZAS devem ser fortalecidas, usadas, maximizadas.
As OPORTUNIDADES devem ser aproveitadas.
As FRAQUEZAS devem ser eliminadas ou compensadas.
As AMEAÇAS devem ser evitadas ou seus efeitos devem ser minimizados.

4º Passo: Preparar um organograma/cronograma definindo prazos e responsáveis pelas ações identificadas na matriz de ação, num sistema de gerenciamento do Plano de ações.
Por ultimo e, se for o caso, definir um sistema basico de organização do grupo.

Textos consultados e utilizados:
- Santos, Glória Lúcia. “Mobilização Social em Comunidades”, Curitiba: UNILIVRE, 2002.
- Krüger, Hans. “Planejamento, acompanhamento e avaliação em projetos de gestão ambiental”, Manaus: Agência de Cooperação Técnica, 2002.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A Arte de Planejar através do Planejamento Estratégico Situacional

1. INTRODUÇÃO

A palavra planejamento faz parte do vocabulário e do dia-a-dia da grande maioria das pessoas. Desde a dona de casa que planeja mensalmente a compra no supermercado e semanalmente a compra na panificadora ou na feira, passando pela organização não-governamental que se desespera com a baixa produtividade de seus esforços, até as equipes econômicas que dão as diretrizes para unificação de blocos econômicos, como o Mercado Comum Europeu ou a ALCA.

Contudo, cada uma dessas pessoas ou organizações tem uma idéia diferente do seja planejamento. Mas apesar dessas diferenças, algumas coisas elas tem em comum: a crença de que planejar é, antes de mais nada, uma técnica. Alguns acham que planejamento é pura e simplesmente uma técnica. Nada mais falso e equivocado, pois planejamento é, antes de tudo, um estado de espírito!

Não um estado de espírito contemplativo. Pelo contrário, a visão do planejamento como sendo essencialmente uma técnica é que se assemelha a contemplação, pois se pensa no planejamento como o ato de escrever no papel um conjunto de boas intenções e de meios que, hipoteticamente, permitirão atingi-las e, pronto, está feito o planejamento. Tudo dentro de uma “técnica”, é claro! Mas planejar exige um estado de espírito ativo e interativo.

O planejamento é uma reflexão que precede e comanda a ação. É a mediação entre o conhecimento e a ação, entre a ação e o conhecimento. O planejamento mexe com questões que nos são muito caras.

Mexe com a verdade. A nossa verdade a respeito de uma situação: - Quais são os meus problemas? - Como posso explicá-los? - Tenho, verdadeiramente, interesse em resolvê-los?

Mexe com o desejo: - O que eu quero no lugar dos meus problemas atuais? - O paraíso? - Alguns problemas menores que os atuais? - Sei realmente o que quero?

Mexe com o poder: - Posso chegar onde quero? - Tenho os recursos necessários? - Quem são meus aliados e meus oponentes? - Quais suas forças? - Como vou acumular poder e como vou usá-lo?

E, por fim, mexe com a vontade: a vontade transforma a reflexão em ação e a ação em reflexão! A vontade é a vida do planejamento. E se essa vontade não é abstrata, é concreta, o ator que planeja tratará, antes de tudo, de criar uma forma de auto-organização que lhe permita fazer essa reflexão sistemática sobre sua ação, a partir da própria ação.

Mexendo com questões tão importantes, muitas delas mal resolvidas, não é de estranhar que tenhamos muita dificuldade em planejar. Ainda mais se acharmos que planejamento é, essencialmente, uma técnica.

Se tivermos a compreensão correta do significado do planejamento, ai sim, podemos pensar em uma técnica, ou melhor, em um método que nos permita articular num todo coerente a nossa reflexão sobre essas questões.

Um método e algumas técnicas que permitam, em termos de planejamento, a construção de um ator coletivo, dotado de capacidade de reflexão, capaz de usar essa reflexão para orientar suas ações na direção de sua utopia, na direção de sua liberdade. Nesse sentido, planejar é se libertar, ser livre!


2. OS DESDOBRAMENTOS METODOLÓGICOS DO PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO SITUACIONAL

Diversos autores pensaram métodos e técnicas diferentes para organizar sua liberdade através de um plano. Entre eles, vamos conhecer neste momento o Planejamento Estratégico Situacional.

O Planejamento Estrategico Situacional, tambem conhecido como PES, foi criado por Carlos Matus, presidente do Banco Central, assessor presidencial e ministro da fazenda no governo socialista do chileno Salvador Allende. Durante seu exilio, apos o golpe militar, Matus radicou-se na Venezuela, onde criou a Fundacao Altadir, e dedicou-se a analisar por que as experiencias de planejamento sao, via de regra, tao conturbadas e, as vezes, mal sucedidas.

Na sua obra Adeus, Senhor Presidente (lançado no Brasil pela Litteris Editora) o autor sintetiza sua vivência de planejador e teórico, levado pelas circunstâncias a planejar e decidir sob a pressão dos fatos políticos, descobrindo, na dolorosa experiência, a necessidade irremediável de reconciliação do técnico com o político.


Para Matus, o planejamento é um processo técnico-político resultante de um jogo de atores em interação, conflito, cooperação e alianças, os quais têm suas próprias estratégias e sua particular visão dos problemas e da realidade. Como tal, é indeterminado e constitui um processo aberto, em que o futuro está para ser construído pela interação dos atores. Sua crítica ao plano normativo consiste, precisamente, nesta concepção aberta do planejamento que não pode ser reduzido a um documento excessivamente estático para a acompanhar a dinâmica do jogo social, no qual os atores exercitam sua liberdade e disputam suas estratégias e objetivos. O planejamento é, deste modo, uma atividade de cunho nitidamente político, da mesma forma que a política é um jogo e conflito de estratégias que constituem e requerem, cada vez mais, um esforço de planejamento com os recursos técnicos disponíveis, organizando informações, hierarquizando e ordenando as ações, orientando as decisões. E como o ator que planeja é parte do processo social e político e está por este contido, ele é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto do planejamento.

Planejamento Estratégico Situacional - PES, Método Altadir de Planejamento Popular - MAPP e Planejamento Orientado por Objetivo - ZOPP são componentes de um sistema integral de macro a micro planejamento. Essa concepção, desenvolvida por Matus, compreende três diferentes níveis:


1º Nível - PES - que é um planejamento de alto nível para macro-organizações, como por exemplo, Estados, Prefeituras de grande porte, grandes empresas ou multinacionais;


2º Nível - ZOPP (sigla alemã que significa ziel orientierte projekt planung), que é um método de planejamento para projetos orientados por objetivos, de grande utilidade em níveis intermediários de organizações, tais como Secretarias de Estado, Prefeituras, Departamentos Acadêmicos ou mesmo Intercâmbios de Organizações Internacionais (é adotado, por exemplo, pelo Ministério de Cooperação Econômica da Alemanha);


3º Nível - MAPP, estruturado para planejamento em bases populares (associações, partidos políticos, setores governamentais comunitários etc), e para efetivar as propostas de democratização e participação em sua implementação. Todos os três níveis utilizam categorias, conceitos e concepções equivalentes, diferenciando-se apenas na complexidade.


O Método Altadir de Planejamento Popular - MAPP - é um método participativo que respeita a visão que o ator tem dos problemas que o afetam e cria um compromisso muito forte do ator com a análise dos problemas e as soluções que ele mesmo propõe. Trabalha com técnicas de discussão em grupo, análise dos problemas e suas causas, descrição dos problemas, identificação dos atores relevantes para cada problema, seleciona as operações para enfrentá-las com a disponibilidade dos recursos necessários, identificação dos argumentos, condicionantes e apostas que podem influir no êxito do plano e a previsão das surpresas que podem afetar a validade e eficácia do plano.


3. FUNDAMENTOS DO PLANEJAMENTO ESTRATEGICO SITUACIONAL


O PES entende o planejamento como o cálculo que precede e preside a ação. Quatro momentos básicos regem o planejamento situacional. São chamados de momentos e não de etapas porque são instâncias que se repetem constantemente, em ordem variável, no processo do planejamento. São esses momentos:


O texto a seguir é uma síntese do pensamento de Carlos Matus, expressado em seus textos "Planejamento, Liberdade e Conflito" e "O Plano como aposta".


1. O Momento Explicativo: quando o ator que planeja está permanentemente indagando sobre as oportunidades e problemas que enfrenta, tentando explicar as causas que os geram.


2. O Momento Normativo: aquele no qual o ator que planeja esboça como deve ser a realidade ou a situação, e que o planejamento tradicional confundiu com a totalidade do planejamento, terminando por identificar plano com esboço; para o planejamento situacional, o normativo é apenas um momento do processo de planejamento, aquele momento de esboço que se move no âmbito do “dever ser”.


3. O Momento Estratégico: no qual o ator se pergunta como tornar viável seu esboço normativo, que obstáculos deve vencer e como pode vencê-los para que seu esboço de “dever ser” se entranhe na realidade como uma força efetiva de mudança em direção à situação eleita como objetivo, ou seja, como o esboço que está no papel ou em cabeças pensantes pode converter-se em movimento real da situação. Aqui aparecerão obstáculos políticos, econômicos, culturais, organizacionais, cognitivos, legais etc. Porque o problema político e todos os demais problemas não estão resolvidos de antemão, de maneira que o planejador possa dedicar-se exclusivamente ao problema econômico. Quem planeja não só deve esboçar as coisas como elas precisam ser, mas também deve fazer um cálculo de como driblar os obstáculos que se opõem ao cumprimento desse esboço. Aqui o planejamento situacional começa a se diferenciar fortemente do planejamento tradicional que, normalmente, esgota sua tarefa no momento do esboço. O mesmo esboço que, posteriormente, o técnico entregará àquele que decide e àquele que executa o plano, a fim de materializá-lo, como se a “decisão” e a “execução” não fossem problemas recorrentes de quem planeja. Tudo isso também leva à revisão dos conceitos de planejamento e planejador, porque aquele que planeja é que realmente comanda um processo. O planejamento refere-se principalmente ao processo de governo (com minúscula), não exclusivamente ao governo de um Estado, e sim, mais além, por exemplo, ao governo de um ambulatório, ou de uma diretoria de um ministério, ou de um sindicato, ou de uma empresa. O planejamento refere-se ao processo de governo e quem planeja é quem governa.

Quem realmente planeja é quem tem a capacidade de tomar decisões. Por isso o planejamento situacional dá ênfase ao momento da ação e usa a exploração sobre o futuro como um recurso para dar racionalidade à ação, mas não se detém na mera exploração do futuro, nem separa em partes o planejamento da gerência na ação. O planejamento não é um mero cálculo que precede e preside a ação. Conseqüentemente, cálculo e ação são inseparáveis e recorrentes. Esta é outra limitação do planejamento tradicional, que traçou limites artificiais entre quem planeja e quem executa.

O momento estratégico refere-se, então, ao problema de driblar os obstáculos que os diferentes recursos escassos, que não são apenas econômicos, nos apresentam. Às vezes esses problemas podem ser da ordem de conhecimentos, às vezes de poder político, de disfuncionalidade de valores etc. Há muitos recursos escassos que limitam o cumprimento do plano. Por isso, o conceito de planejamento tem de exceder o meramente econômico e abarcar situações integrais.


4. O Momento tático-operacional: o quarto e último momento do planejamento situacional e, também, o momento decisivo. Isso porque os outros três momentos do planejamento têm uma única utilidade: constituir-se num cálculo para a ação, num cálculo que precede e preside a ação. Não obstante, é indispensável calcular, explorando além do presente para dar racionalidade às nossas decisões de hoje. Entretanto, no final, julgaremos, o planejamento pela forma como este cálculo é capaz de alterar, conduzir e orientar as ações presentes. Este cálculo é o centro do momento tático-operacional e tem por objetivo orientar cada passo que damos no dia-a-dia e avaliá-lo em relação à situação-objetivo, não só para revisá-la como guia, que seguirá precedendo e presidindo nossos passos seguintes. A realidade se constrói no presente. Os resultados que obtemos na realidade são um produto desses passos que damos no dia-a-dia; os planos que simplesmente pensamos ou esboçamos não pesam, pesam somente aqueles que precedem e presidem nossos passos.


4. UM DECÁLOGO PARA O PLANEJAMENTO

Primeira consideração: Planeja quem governa.

Para nos situarmos na concepção do planejamento estratégico, é necessário redefinir o sentido das palavras “planejamento” e “planejador”; o planejamento tem de ser algo mais amplo, mais abrangente, que o mero planejamento de um âmbito específico, como o econômico. Por sua vez, planeja quem governa, quem tem a capacidade de decidir e a responsabilidade de conduzir. Ainda que o planejador planeje num âmbito restrito, estará limitado por múltiplos recursos escassos que atravessam as diferentes dimensões da realidade. E terá de lidar com tais restrições. Porém, não poderá fazê-lo bem se não ampliar o conceito de planejamento com o qual opera. Muitos planejadores têm aplicado intuitivamente essa noção ampliada de planejamento em suas atividades, mesmo em âmbitos restritos.


Segunda consideração: O planejamento refere-se ao presente.

É necessário ressaltar, reafirmar, que o planejamento não se refere a um projeto sobre o futuro. Tudo o que fazemos para explorar o futuro no prazo de um ano, cinco anos, ou mesmo quinze anos, não tem nenhuma importância se tais explorações não orientam a ação atual. Tudo o que o planejamento faz para simular o futuro é muito útil, mas é apenas um produto intermediário. O produto final é a decisão que deve ser tomada hoje. Porém, a decisão atual não pode ser racional se não transcende o presente, porque o que ocorre depois, ou amanhã, é o que dá eficácia à minha decisão.


O problema dos prazos no planejamento tem, então, sua origem teórica na impossibilidade de hoje tomar uma decisão racional sem explorar o futuro. Essa exploração do futuro é imprescindível, mas não é o coração do plano. O coração do plano é o intento de governar um processo , e só se governa um processo por meio da ação. Em conseqüência, a planificação refere-se ao presente, e isto lhe dá um grande sentido prático, liberando-o do sentido livresco que teve até agora. Se o planejamento deve ser útil como cálculo que precede e preside a ação no dia-a-dia, tal cálculo não concede tempo para se escrever dezoito volumes. Assim, o planejamento nem se refere ao futuro como coisa essencial, nem é um projeto. O planejamento tradicional confunde planejamento com projeto, com esboço.


Esboçar coerentemente como as coisas devem ser é um problema de alta complexidade teórica, e do dever-ser da meta devemos “deduzir” o dever-ser dos meios. Assim, numa espécie de lógica dedutiva, busco a coerência entre o dever ser dos objetivos e o dever ser dos meios e instrumentos mais precisos, capazes de alcançar a meta. Mas esta lógica retrocasual é apenas um aspecto do processo de planejamento. Efetivamente, salvo para um ator que tenha absoluto poder, cumprir a meta esboçada é o começo de outro problema de planejamento. Porque tal meta sofrerá tropeços, terá opositores, estará sujeita a restrições e só será consistente com a realidade inicial que a fundamenta. Porém, esta situação inicial está permanentemente mudando. Conseqüentemente, devo revisar essa meta para que seja realista, e não uma mera aspiração ideal, inalcançável dentro das restrições presentes ou ultrapassada pelos fatos.


Então, planejar é apenas em parte esboçar. O esboço é parte do momento normativo, justamente um dos quatro momentos do planejamento situacional.


Terceira consideração: O planejamento exige um cálculo situacional.

O planejamento supõe um cálculo complexo, e esse cálculo é afetado por múltiplos recursos escassos que cruzam muitas dimensões da realidade. A equipe de uma unidade de saúde, por exemplo, não enfrenta apenas de saúde, mas entre outros, problemas organizativos, financeiros, políticos etc e, conseqüentemente, para eles, planejamento é algo muitíssimo mais complexo do que dominar as técnicas de saúde.

O planejamento refere-se a um cálculo situacional complexo, que cruza os quatro momentos do planejamento estratégico. Em conseqüência, o planejamento é, necessariamente, um cálculo situacional complexo, e este deve estar estritamente ligado à ação no presente, ou não é planejamento. Pode ser literatura sobre o futuro, pode ser futurologia e, como normalmente fazem-se os planos tradicionais com muito atraso, pode ser história, mas não é planejamento. Para que seja plano, e para que falemos de planejamento, este cálculo situacional complexo tem de preceder e presidir a ação concreta.


Quarta consideração: O planejamento refere-se a oportunidades e problemas reais.

As categorias de oportunidade e problema são essenciais na planificação situacional. Os problemas reais não se referem a relações abstratas que intelectualizamos como síntese global. Por exemplo, se nos parece que o setor agrícola cresce pouco, esse não é o problema concreto real, essa é a formalização sintética de múltiplas oportunidades e problemas reais que estão no âmbito agrícola, e que nos é útil como forma indicativa de uma abstração significativa. Porém, o planejador não pode atacar essa síntese formal. Pode apenas atuar sobre a realidade dos fenômenos. De maneira que, se o planejamento não desce às oportunidades e problemas concretos, ou, melhor dizendo, se não sobe a eles, porque isto é difícil, tampouco é planejamento.


O dever do plano é que todo mundo o entenda, mesmo quem não é perito em planejamento, e que todo mundo possa opinar sobre esse plano, pois é legítimo que todos opinem sobre os problemas reais que os afetam e sobre as soluções mais eficazes. Assim, é essencial ao planejamento a categoria de ‘problema’. Isto obriga o planejador a dedicar uma boa dose de preocupação teórico-metodológica ao estabelecimento de instruções práticas sobre como se determinam os problemas, como se analisam problemas, como se explicam problemas, o que são problemas verdadeiros e problemas falsos, e como os diferentes atores sociais valorizam os problemas. Porque o que é problema para um pode ser oportunidade para outro.

Assim, certamente nos distanciamos da categoria de “diagnóstico”, pois o diagnóstico foi difundido como a busca de verdade ‘una’ única e científica, transplantada da ciência médica para o planejamento. Assim, é muito importante, do ponto de vista do planejamento situacional, que eu explique a realidade não só como a vejo, mas que me coloque na auto-referência do outro e tente compreender sua explicação, distinta da minha. Não me interessa, neste momento, se creio que sua explicação é má, é extremista, é direitista ou ineficaz. Não interessam os qualificativos que eu possa lhe atribuir. O que interessa é que sua explicação é o que o move a ter um plano diferente do meu, e o move à ação que me obstaculiza. Minha obrigação, em termos de planejamento situacional, é entender sua explicação e incluí-la na minha explicação da realidade. A explicação do ‘outro’ é parte da realidade que devo explicar, é parte da situação.


Quinta consideração: O planejamento é inseparável da gerência.

Para que o planejamento funcione, é necessário que ele responda às necessidades de quem gerencia. O planejamento operacional (na base) e o planejamento diretivo (de síntese global), são espaços distintos de planos, relacionados pelos seguintes princípios: a) primeiro, de que o planejamento diretivo não pode ter sentido sem o planejamento operacional; b) segundo, o planejamento operacional geralmente se realiza sob “fenoestruturas” constantes.


Sexta consideração: O planejamento situacional é, por definição, necessariamente político.

Não se pode ignorar o problema político, uma vez que um dos recursos que, se restringido, restringe nossas capacidades de produção social de ações é o poder. Também pode ser os valores, as culturas internalizadas, nos atores desses processos, os conhecimentos etc. No planejamento situacional, o político não é um dado externo nem um marco restritivo que vem de fora. O planejamento situacional internaliza as questões políticas como variáveis, e trata de operar com elas. Isso supõe a intenção de sistematizar o planejamento político no que ele é sistematizável, porque, evidentemente, a política tem uma forte dose de arte, de experiência, de intuição. Mas, de toda forma, há muitos aspectos sistematizáveis do planejamento político, assim como nem tudo é sistematizável no planejamento econômico. O importante é reconhecer que, se em alguma medida, não sistematizamos o planejamento político, o planejamento não pode ser totalizante, não pode ser situacional e não pode identificar-se com o processo de governo. E, se o planejamento não é situacional, é quase impossível impedir que o cálculo político e o cálculo econômico sigam caminhos paralelos, com o conseqüente disperdício de oportunidades econômicas abertas no processo político ou de oportunidades políticas abertas no processo econômico.


Sétima consideração: O planejamento não se refere nunca a adivinhar o futuro.

A adivinhação não é trabalho de planejadores. Ao contrário, o planejamento deve trabalhar considerando a incerteza de possíveis ‘variantes’ que escapam à nossa verdade e poder. A forma de reconhecer uma limitação técnica no planejamento consiste em tratar tal limitação como uma variante, não como uma opção. Tratar uma variante como uma opção seria uma escolha artificial e uma opção ilegítima, que transformaria o plano em uma adivinhação, em uma aposta sobre o futuro. Naturalmente essa aposta é muito vulnerável, uma vez que, não se confirmando essa opção, o plano vem abaixo e o planejador se encontrará sem plano e sem estratégias. Aqui o planejamento estratégico propõe algo muito elementar, originado das concepções antigas de planejamento: trabalhar com “cenários de cálculo”. Um cenário de cálculo do plano conforma-se por meio de uma determinada articulação de opções e variantes. Nossa obrigação é ter um plano e uma estratégia para vários cenários, que se adaptem de forma ubíqua dentro dos extremos aparentemente impossíveis.


Oitava consideração: O plano é modular.

É composto por unidades e células que podem agregar-se, dimensionar-se, combinar-se de diferentes maneiras, segundo os objetivos propostos, à situação inicial e à estratégia elaborada. A unidade básica modular de plano será a operação. Uma operação é a aplicação de recursos ou insumos na produção de um resultado que altere a situação. Não se trata apenas de recursos econômicos nem de resultados estritamente econômicos; trata-se da aplicação de recursos escassos na situação para se alcançar como resultado uma mudança da situação. Trata-se, porém, de recursos genéricos, já que podem referir-se a recursos de poder, econômicos, de conhecimento etc. É um complexo de recursos, o que requer a produção de uma operação que, por sua vez, produz efeitos sobre todas as dimensões da realidade. Assim, haverá operações exigentes em recursos econômicos, operações exigentes em recursos de poder e operações exigentes em ambos os tipos de recursos. Dessa forma, a operação é a unidade celular do plano e se configura por uma agrupamento coerente de ações, com as quais o ator que planifica intenta alterar a realidade.

Essa concepção de plano é modular para: a) primeiro, fazer frente às mudanças no cenário de cálculo do plano, de modo que possa se introduzir, tirar ou redefinir algumas operações, com as quais se pode mudar a estrutura modular do plano por operações; b) segundo, para que cada operação pode ser dimensionada de acordo com as variáveis previsíveis, a fim de se usar mais ou menos recursos, conforme a situação o exija ou permita, possibilitando a existência de esboços rígidos (independentes do cenário em que ocorra na realidade) ou flexíveis.


Nona consideração: O planejamento não é monopólio do ator que planeja.

O plano enfrenta oponentes que também planejam. A idéia central do planejamento estratégico consiste em considerar que, além do ator que planeja, há outros atores na realidade que também planejam com objetivos distintos do planejador. Não existe um monopólio da capacidade de planejar, como supõe a teoria tradicional, onde o Estado é o único ator que planeja, e não se reconhece a existência de oponentes. Naturalmente, se não há oponentes, plano e esboço normativos podem ser idênticos. Porém, no planejamento situacional é imprescindível contar tanto com a resistência ativa e criativa dos oponentes como com a ajuda de possíveis aliados, conquistados no entendimento de objetivos mediatos e imediatos. Pois bem, se o ator que planeja coexiste na realidade com outros atores que também planejam, o processo de explicar a realidade se complica e o plano exige o momento estratégico. Surge, assim, a necessidade de explicar situacionalmente a realidade. Esta nova forma de diagnosticar consiste em apreciar a realidade não só a partir de nossa visão, mas também da visão “dos outros”. Quem são os outros atores ? O que produzem ? Como explicam essa mesma realidade ? Que planos têm ?


Porque, agora, o cumprimento do plano não se resolve simplesmente na política econômica e sim na luta política. Se nosso plano se cumpre, isso quer dizer que o plano dos outros não obtêm êxito. A resistência ao nosso plano não é passiva e estática; o plano se realizar por um ator que luta dentro dessa corrente do rio dos fatos, que nos empurra com sua força envolvente. Essa corrente do rio somos nós todos, atores que se esforçam para conduzir a realidade; nós imprimimos força a essa corrente. Por isso, em muitos casos, o plano é uma “contra-corrente” e supõe algum grau de conflito.


Décima consideração: O planejamento não dispõe sobre o tempo nem se deixa enrijecer por ele.

O problema do tempo no planejamento é um tema fascinante e de muitas arestas. Por um lado, em poucos dias, o plano comprime o tempo para simular a realidade para além do presente. Mas também joga com esse eixo do tempo, movendo-se desde o presente até o passado e o futuro. A idéia de planejamento em prazos distintos surge do fato de que estes espaços de tempo são interdependentes.

O planejamento situacional opera em quatro instâncias temporais articuladas e formalizadas: a) o planejamento na conjuntura: com o intento de, no dia-a-dia, sistematizar o cálculo que precede e preside a ação e que, para ser racional, requer dos planos prazos mais longos; b) o planejamento anual operativo: ou o plano de ação anual, que propõe uma referência direcional ou um farol direcional para o planejamento na conjuntura, mas que, por sua vez, para fundar sua proposta anual, requer referências direcionais mais distantes no tempo; c) planejamento para o período de governo: ou de médio prazo, que marca as trajetórias e objetivos que servirão de guia para o planejamento anual e conjuntural; d) planejamento a longo prazo e muito longo prazo: cuja função é antecipar o futuro que queremos criar e aí modelar nossos sonhos realizáveis; este planejamento em horizontes muito longos serve de farol direcional para o planejamento a médio prazo. O plano de prazo mais longo é a medida do valor direcional do plano de prazo mais curto. Por sua vez, o plano de prazo mais curto é a medida da ação concreta que permite avaliar a execução dos planos de prazos mais extensos. À medida que os prazos se alongam, nossos objetivos são mais estáveis e, a curto prazo, mais mutáveis. Pois bem, planejar através do tempo e em diversos prazos não tem o significado de uma aposta com data marcada sobre o futuro.

Dentro do possível, o planejamento tradicional centra o problema na arte de esboçar: o melhor plano é o que tem o melhor esboço, o melhor projeto, o projeto mais coerente. Mas o problema do planejamento começa com o esboço, não termina com o esboço. Por isso, existe o momento estratégico e o momento tático-operacional. O planejamento compreende também o cálculo que permite fazer as coisas; esse cálculo é interno no planejamento situacional e está fora do âmbito do planejamento normativo.

Textos utilizados nessa reflexão:
- Planejamento, de Marco Arroyo. INCA, 1994.
- Elementos conceituais do planejamento, da Escola Sindical 7 de outubro.
- Adeus, Senhor Presidente, de Carlos Matus. Litteris Ed., 1989.
- MAPP Metodo Altadir de Planificacion Popular, da Fundacion Altadir.
- Curso de planejamento estratégico - Método MAPP, do INCA. Ascom - UFPA, 1994.