quinta-feira, 29 de novembro de 2018

HOMENS E MULHERES CONECTADOS COM O PROPÓSITO DE DEUS PARA SUA GERAÇÃO



Todos nós queremos ser úteis, usados, bênção nas mãos de Deus. Isso é um desafio. Porém, conseguiremos isso fazendo do nosso jeito ou podemos aprender com personagens da Bíblia? Atos 13:36 diz que Davi “serviu ao propósito de Deus em sua geração”. Como entender essa expressão?

Muito falamos sobre vários aspectos da vida daquele que foi o homem “segundo o coração de Deus”, sobre seu pecado, seu arrependimento, sua fé, suas conquistas na guerra, mas quero chamar atenção para algumas características de Davi que Deus quer ver reproduzidas em nós para que também sejamos homens e mulheres segundo o seu coração e que também sejamos úteis à nossa própria geração.

Davi foi útil porque ele se dispôs a cumprir o propósito de Deus para a sua geração, para o seu tempo. Davi estava conectado com esses propósitos, ele não estava aprisionado a tradições do passado ou a religiosidade formal, por isso muitas de suas atitudes escandalizaram as pessoas de sua época, como na ocasião em que ele dançou compulsivamente de alegria celebrando o retorno da Arca da Aliança para Israel (II Samuel 6:16) ou quando ele pegou os pães sagrados do templo para se alimentar em batalha (I Samuel 21:1-6).

Para sermos iguais a Davi e nos tornarmos relevantes aos propósitos de Deus para nossa geração, além de não estarmos presos a tradições, precisamos desenvolver algumas características básicas:

1.      Entenda que você é a manifestação da glória de Deus aqui no lugar onde você vive (Colossenses 1:27). Não espere que a “glória” se manifeste do céu, que desça como nuvem ou que “encha a casa”, pois você é essa manifestação através das suas atitudes. Então desenvolver atitudes que expressem os valores do Reino de Deus é a melhor forma de estar conectado com os propósitos do Criador para a sua geração.

2.      Não viva para si próprio, mas tome para o si propósito para o qual Deus te gerou (Gálatas. 2:20a) Uma das questões mais inquietantes para nós, humanos, é o sentido da vida. E o melhor lugar para encontrar esse sentido é buscando em Deus e na sua Palavra, identificando os sinais em sua própria vida. E sabe quais são os melhores sinais que Ele deixou em cada um de nós? Os dons. Sim, cada um de nós possui dons, talentos, habilidades e ao identifica-las podemos desenvolver uma trajetória de vida dedicada ao propósito para o qual fomos criados.

3.      Você precisa se despir de todos os preconceitos (Gálatas 3:26-28; Colossenses 3:11). Existem dezenas de preconceitos que expressamos, que nos limitam, primeiramente porque somos frutos de uma cultura imperfeita, comprometida com o sistema de um mundo baseado no interesse, na exploração de uns sobre outros e no acumulo material. Enxergar esses preconceitos em nós mesmos e atuar continuamente para debela-los é uma das melhores formas de nos conectarmos com o propósito de Deus para a nossa geração, pois os preconceitos são desenvolvidos socialmente e geralmente passam de uma geração para outra. Aqui quero utilizar três tipos de preconceitos que paralisaram a Missão da Igreja, calaram a sua voz profética e por isso impediram que ele fosse uma expressão plena da glória e do propósito do Criador:

v  Preconceito contra as mulheres. Por causa do machismo durante séculos as mulheres tiveram papel secundário na Igreja e foram impedidas de viver plenamente seu chamado e expressar seus dons. Porém, desde Joel 2:28 até Gálatas 3:28, passando por Atos 2:2, entre outras passagens, a Palavra de Deus deixa claro que somos todos iguais diante de Deus e que todos recebemos o Espírito Santo, homens e mulheres.

v  Preconceito contra os negros, que foram escravizados, e a igreja perdeu a chance de ser a principal voz contra a escravidão, já que Gálatas e Colossenses dizem que todos nós somos iguais e livres diante de Deus e Gênesis 1 diz que Deus deu do seu espírito a todo ser humano criado. Não existe justificativa bíblica ou ética para o sistema de escravidão que a cultura ocidental desenvolveu e que foi apoiado pela maior parte da igreja cristã.

v  Falta de aliança com a Criação. Em Gênesis 9:9 a Bíblia fala da aliança de Deus com os animais e com tudo que foi criado e em Colossenses 1:20 diz que Jesus através de seu sangue derramado na cruz restaura todas as coisas aos propósitos para os quais foram criadas, tanto as que estão nos céus, quanto as que estão na terra. Ecologia e ambientalismo não não deveria ser "coisa" de ong ou de universidade, mas sim a expressão do compromisso de todo cristão com a obra do Criador.



4.      Ter aliança com as gerações (Salmo 145:4) não significa apenas que Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre, mas sim que cada geração é responsável por ensinar quem Deus é para a geração seguinte e também que Deus se revela com mais intimidade e profundidade a cada geração e é nosso papel estar conectado com essa revelação, sendo instrumento de sua vontade.
     
Buscar sempre conhecer a vontade de Deus, estar conectado com seu propósito, sem estar preso a armadilhas do passado, a tradições e a religiosidade formal, significa “renovação de mente”, ter a “mente de Cristo” (Romanos 12:2; Filipenses 2:5 e Efésios 4:23) e esse é o principal desafio para aqueles que querem viver plenamente o propósito para o qual foram criados.


Belém-PA, novembro de 2018
Pr. Fidelis Paixão



sexta-feira, 9 de novembro de 2018

OS POBRES: NÓS SEMPRE OS TEREMOS CONOSCO? Parte II


Quando nos referimos aos pobres estamos utilizando a mesma compreensão que a Bíblia fala sobre o assunto, ou reproduzimos o que aprendemos num evangelho já contaminado com valores mundanos?



A questão dos pobres é um tema central na Bíblia e como cristãos é nosso dever conhecer. A missão da igreja é ministrar aos pobres, pois o Reino de Deus pertence a eles, segundo Jesus afirmou em Lucas 6:20. Quando perguntado se ele era o Cristo que haveria de vir, ele respondeu que o evangelho estava sendo proclamado entre os pobres. E isso era uma prova de que ele era o Cristo. Este texto é continuidade do anterior (clique aqui), quando comecei a discorrer sobre o tema e aqui darei sequência, visando aperfeiçoar aqueles que fazem parte do Corpo de Cristo, para o bom combate.

Compreender esse tema e sua relação com a nossa missão como cristãos e como igreja não é apenas importante, mas é vital, pois esta geração tem experimentado um forte mover de intimidade através do louvor que tem transformado muitas vidas e manifestado a Graça de Deus a todos. Porém, se esta geração se deter nesse mover, corre o risco de ouvir do próprio Deus as palavras ditas através do profeta “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras. Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene” (Amós 5:23-24). Um louvor e uma adoração desconectados de ações que manifestem a justiça, a graça, a misericórdia e o amor de Deus, se tornam inaceitáveis para Ele.

Na primeira década deste século, Beth Wood e Maurício Cunha publicaram um belíssimo livro, infelizmente pouco conhecido no meio evangélico, intitulado “O Reino entre nós: transformação de comunidade pelo evangelho integral” (Editora Ultimato) e o texto abaixo é uma reprodução parafraseada ou literal de trechos do capítulo 2 “O coração de Deus para os pobres”. Vou evitar aspas, mas fica aqui registrada a referência, recomendo a leitura do livro para quem deseja se aprofundar sobre o tema.

A tradução bíblica na língua portuguesa para a palavra “pobre” é bastante limitada. Pois nos escritos originais do hebraico e do grego, pelo menos sete palavras diferentes se referiam ao mesmo tipo de fenômeno, com perspectivas ou características diferentes, por isso é importante conhece-las, para saber exatamente a que se referia o autor bíblico.

No Antigo Testamento os vocábulos “ani”, “ebyon”, “rash”, “micken”, “chelkah”, “raeb” e “dal, foram traduzidos como “pobre”. Vamos compreender a origem e o significado original de cada um deles.

“ani”

A palavra mais comum no Velho Testamento para falar dos pobres é ani, encontrada 80 vezes. Esses são os que sofrem aflições e opressão. São vítimas de forças, decisões externas e circunstâncias injustas. Isaías se referiu a eles em 3:14 “O Senhor entra em juízo contra os anciãos do seu povo e contra os seus príncipes. Vós sois os que consumistes esta vinha; o que roubastes do ani está em vossa casa”. 

Nesta passagem podemos ver não só a vitimização do ani, mas também o juízo de Deus contra aqueles que os oprimem. Deus odeia a injustiça e age contra os opressores, segundo o profeta. Nós temos uma responsabilidade diante Dele, de identificar as raízes da opressão e de promover a justiça.  


“ebyon”

No propósito original de Deus para sua criação, não haveria pobres na terra. Foi o pecado e a desobediência que geraram a pobreza através da escassez e de uma estrutura socioeconômica baseados no acúmulo, na avareza e na exploração de uns sobre os outros.

Mas ao separar um povo para torna-lo referência sobre as demais Nações, Deus lhes apresentou um sistema social que impediria esse tipo de iniquidade no seu meio. Em Levítico 15:4 ele diz “... para que entre ti não haja ebyon; pois o Senhor teu Deus te abençoará abundantemente na terra que te dá por herança, para possuí-la, se apenas ouvires atentamente a voz do Senhor teu  Deus para cuidares em cumprir todos estes mandamentos que hoje te ordeno.”

No entanto, por conhecer o coração pecaminoso do homem, Deus alerta, no versículo 7, sobre a possibilidade da existência de pobres na terra: “Quando entre ti houver algum ebyon de teus irmãos, em alguma das tuas cidades, na tua terra que o Senhor teu Deus te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão pobre; antes lhe abrirás de todo a tua mão e lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade”.

Por fim, nos versículos seguintes, Deus alerta a seu povo, que por causa da desobediência e de não seguirem suas leis, a pobreza se tornaria inevitável, prescrevendo quais seriam as atitudes corretas a serem adotadas diante do fato: “Livremente lhe darás, e não seja maligno o teu coração, quando lho deres, pois por isso te abençoará o Senhor teu Deus em toda a tua obra, e em tudo que empreenderes. Pois nunca deixará de haver ebyon na terra: por isso eu te ordeno: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na terra.”

Quando Jesus disse em Mateus 26:11 que sempre haveria pobres na terra, ele estava citando esta passagem e não promovendo um fatalismo a respeito dos pobres. Dentro desta realidade, temos a responsabilidade de guardar os nossos corações sempre abertos para os ebyon de Deus. Originalmente, ebyon é aquele que não consegue viver independente dos outros, por causa de sua necessidade, conforme expressa o profeta: “Levanta o pobre do pó e desde o monturo, exalta o ebyon, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono da glória...” (I Samuel 2:8).

“rash”

A palavra rash se refere aos pobres por espoliação. Em outras palavras são os que se tornaram pobres porque alguém com mais poder tirou o pouco que tinham.

O melhor exemplo se encontra em numa história contada pelo profeta Natã: “Havia numa cidade dois homens, um rico e outro rash. Tinha o rico ovelhas e gado em grande número; mas o rash não tinha cousa nenhuma, senão uma cordeirinha que comprara e criara, e que em sua casa crescera, junto com seus filhos; comia do seu bocado e do seu copo bebia; dormia nos seus braços, e a tinha com filha. Vindo um viajante visitar o homem rico, não quis ele tomar das suas ovelhas e do gado para dar de comer ao viajante, mas tomou a cordeirinha do rash e a preparou para o homem que lhe havia chegado. Então o furor de Davi se acendeu sobremaneira contra aquele homem, e disse a Natã: Tão certo como vive o Senhor, o homem que fez isso deve ser morto” (II Samuel 12:1-5). 

Deus odeia a injustiça. Ele espera que o povo dEle se coloque ao lado dos injustiçados. Isto vai requer de nós ações radicais na promoção da justiça, ações estas que muitas vezes não estamos acostumados a associar à tarefa da Igreja.

Em nosso meio, encontramos exemplos de rash entre os povos indígenas, comunidades tradicionais e alguns trabalhadores sem-terra, entre outros.

“micken”

A grande maioria que ouvimos falar dos pobres ou da pobreza nas igrejas, é associando-os com a preguiça e a indolência. Porém, não é essa a ênfase dada pela Palavra de Deus. Micken é a única palavra hebraica que faz esse tipo de associação e aparece em Provérbios como um alerta a um tipo de comportamento que não está condizente com os propósitos do Criador: “Um pouco para dormir, um pouco para encruzar os braços em repouso, assim sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua micken como um homem armado” Provérbios 24:34. E esse tipo de comportamento não deve ser utilizado como uma desculpa para fecharmos o nosso coração, Deus não nos deu essa opção.

“dal”

O dal é o pobre frágil. A raiz da palavra nos dá o sentido de algo que está pendurado por um fio, em perigo de cair. Deus sempre fortalece os fracos e vai julgar os que pisam sobre os dal, conforme nos alertou através do profeta Amós: “...portanto, visto que pisais o dal e dele exigis tributo de trigo, não habitareis nas casa de pedras lavradas que tendes edificado; nem bebereis do vinho das vidas desejáveis que tendes plantado” (Amós 5:11).

“raeb”

O raeb é, talvez, o pobre que temos mais facilidade em servir. O raeb é o faminto; o que simplesmente não tem o que comer independente do motivo. A Palavra nos ensina que devemos dar o nosso pão ao raeb: “Sendo, pois, o homem justo e fazendo juízo e justiça, não comendo carne sacrificada nos altos, nem levantando os olhos para os ídolos da casa de Israel, não roubando, dando o seu pão ao raeb” (Ezequiel 18: 5-7).

“chelkah”

Chelkah vem de uma raiz que quer dizer “escuro” ou “infeliz” e se refere ao pobre infeliz ou deprimido na mente. Qual seria o nosso agir com os que não conseguem enfrentar a vida, os que estão de luto, os lidando com doença mental?  Deus é o defensor do chelkah. Ele se revela como Torre Forte na vida deles. Devemos nos juntar aos chelkah, trazendo esperança, força e proteção: “Tu, porém, o tens visto, porque atentas aos trabalhos e à dor, para que os possas tomar em tuas mãos. A ti se entrega o chelkah; tu tens sido o defensor do órfão” (Salmos 10:14).

No Novo Testamento, são poucas as palavras gregas traduzidas como pobre ou necessitado. Em Lucas 21:2-4 encontramos a viúva “pobre” que Jesus apresentou como exemplo de generosidade. É interessante notar que três palavras diferentes são usadas para falar da mesma viúva: “Viu também certa viúva mbuwkah lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva ptokos deu mais do que todos. Porque todos estes deram como oferta daquilo que lhes sobrava; esta, porém, da sua husterema deu tudo o que possuía, todo o seu sustento.”

Nessa passagem podemos notar que as três palavras diferentes no grego se referem à mesma pessoa, a viúva, em sua pobreza. Isso nos ajuda a constatar que as palavras gregas não são diferenciadas da mesma forma que as palavras hebraicas. Vamos estudar a palavra mais comum e mais essencial para o nosso entendimento do coração de Deus para os pobres.

“ptokos”

O ptokos é o pobre que, encontrando-se apavorado pelas circunstâncias adversas da vida, procurou um defensor em quem pode confiar e depender, e o achou em Deus. O ptokos se refere ao necessitado que não tem segurança em si mesmo e vive dependendo de outros.

A palavra ptokos se refere primeiro ao fisicamente necessitado e se estende aos necessitados “em espírito”. O ptokos é principalmente o que não tem comida e as outras necessidades básicas supridas.  A este, Jesus foi enviado para proclamar as boas novas do evangelho que promete transformar as suas vidas em todos os níveis, levando-os ao Reino de Deus.  São estes os bem-aventurados; não porque a pobreza faz parte do plano de Deus, mas porque podem se posicionar na completa dependência de Deus, o que certamente é o melhor lugar no mundo.  São esses “escondidos” em Deus que têm a oportunidade de entender o Reino de Deus mais profundamente e então servir de exemplo para nós. São esses que providenciarão encontros com Jesus nas nossas vidas.

Lemos em Mateus 5:3: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Aí encontramos os “ptokos em espírito”. Com a nossa definição é mais fácil entender essa expressão. Existe a possibilidade de alguns que têm conseguido suprir suas necessidades básicas pela própria força, entrar neste relacionamento de dependência em Deus. É mais difícil, mas é possível. É mais difícil, porque o homem sempre tende à auto-suficiência, a depender da sua própria força, da sua inteligência, da sabedoria humana. É possível, porque Deus oferece ao rico esta possibilidade de entender que ao final ele necessita de Deus para tudo. O pobre, que olhando para a sua situação já percebe sua necessidade, tem mais facilidade de entrar no Reino de Deus. O homem que “tem tudo” em termos do mundo sempre terá mais dificuldade em seguir a Jesus, não porque o convite estendido a ele é diferente, mas porque o coração do homem é enganoso e tão facilmente nos leva a acreditar que podemos viver na nossa própria força.

Finalizo esse texto ressaltando a necessidade e urgência de compreendermos a questão do pobre na Bíblia e esse estudo linguístico realizado por Bete Wood e Mauricio Cunha nos possibilitou ampliar largamente a compreensão sobre o tema. Numa próxima oportunidade espero refletir a justiça de Deus e seus reflexos na vida cristã.


Belém – PA, 09 de novembro de 2018
Fidelis Paixão – advogado, educador, pastor
fidelispaixao.blogspot.com

domingo, 4 de novembro de 2018

OS POBRES: NÓS SEMPRE OS TEREMOS CONOSCO? Parte I


Muitos cristãos utilizam argumento bíblico para afirmar que a pobreza é um fenômeno permanente na sociedade humana. Mas Jesus teria realmente dito isso ou esse é um argumento manipulado para considerar natural algo que é resultado do nosso modo de viver e produzir? Aqui a primeira parte de uma reflexão sobre o tema a partir dos ensinamentos bíblicos.


Nós brasileiros nos acostumamos com a profunda desigualdade social existente em nosso país, como se isso fosse assim mesmo, como se sempre fosse assim e como se não tivesse como acabar com isso. Claro, estamos entre os três países com maior índice de desigualdade do mundo, onde a opulência convive lado a lado com a miséria. Desde que nos constituímos como “Nação”, enraizados num modelo escravagista, convivemos com esse tipo de realidade, então é compreensível que a visão de mundo das pessoas considere “normal” esse tipo de realidade. Mas justificar essa realidade utilizando argumentos bíblicos já é uma postura bastante diferente, pois busca fundamentar espiritualmente esse tipo de realidade.

Ouvi de um pastor, recentemente, que “os pobres sempre vão existir”, como uma justificativa para essa desigualdade. Ele se referia a uma frase de Jesus em João 12:8 quando ele repreendeu Judas Iscariotes que condenava a mulher que derramava um perfume caro em seus pés, dizendo “Quanto aos pobres, vós sempre os tereis convosco, mas a mim vós nem sempre tereis.” A maioria dos evangélicos citam essa frase totalmente fora do contexto, tal qual fez esse pastor. Aliás esse é um grande mal: ler a Bíblia e interpretar os versículos fora do seu contexto, ignorando a regra de ouro da hermenêutica, que é entender o texto no seu contexto.

Nesse texto, Jesus estava falando aos seus discípulos naquele determinado momento, por isso ele diz “a mim vós nem sempre tereis”. Acreditar que Jesus estava dizendo que sempre teríamos os pobres, seria o mesmo que acreditar que nós não temos sua presença nos nossos dias, o que não é verdade, uma vez que Ele está presente em nosso meio através do Espírito Santo.

A questão do pobre é um tema central na Bíblia. A melhor demonstração disso é que após reunião dos apóstolos para decidir sobre o ministério de Paulo, chegaram à conclusão que a única recomendação necessária era que deveriam se lembrar dos pobres (Gálatas 2:10), que Jesus afirmou que o Reino de Deus pertence aos pobres (Lucas 6:20) e Tiago em 2:5 alertando que Deus escolheu os que para o mundo são pobres. Jesus chegou ainda a afirmar, em Mateus 25:31-46) que nós nos encontraríamos com ele quando estivéssemos ministrando aos pobres.

Infelizmente a Igreja evangélica atual, foi dominada pela visão anti-bíblica da teologia da prosperidade, pelos valores materialistas deste século e tem gerado crentes arrivistas, com uma mentalidade focada no sucesso social e no acúmulo de bens, totalmente o contrário do evangelho ensinado por Jesus. Em muitos púlpitos estão sendo ministradas mensagens de auto-ajuda e de crescimento pessoal, ao invés de estar sendo pregado o evangelho da graça através da renúncia na cruz do calvário.

É desta forma que os cristãos evangélicos atualmente vão justificando a profunda desigualdade social no Brasil, ignorando ou criticando as políticas sociais de inclusão, de distribuição de renda e de fomento a famílias na linha da pobreza, ignorando que os países mais desenvolvidos do mundo implementaram políticas do tipo “bolsa-família”, “cotas” e similares, para diminuírem a desigualdade social e criarem uma sociedade do bem-estar. A ideologia disseminada nas igrejas hoje em dia procede do modelo neoliberal estadunidense e de sua teologia prostituta, que é a da prosperidade, com os falsos profetas que um dia serão julgados pelo Altíssimo.

A justiça de Deus, biblicamente revelada, está focada na promoção do bem, na disseminação de obras de amor, de inclusão, de respeito aos direitos dos pobres, dos carentes, das viúvas, dos órfãos. Basta ler Isaias 57:5-10, Ezequiel 22:6-12, Oseias 4:6, Amós 2:6-7, 4:1, 5:11-12 e 21-24 (uma das mais belas palavras proféticas da Bíblia), 8:4-7 (que denuncia o salário aviltante que é pago ao trabalhador e é defendido hoje por um dos candidatos à presidência, de que o trabalhador renuncie aos seus direitos através de uma carteira de trabalho verde-amarela), Zacarias 7:9-12, Jeremias 3:15, 12:1-2 e Tiago 1:27 e 5:1-6, isso só pra citar algumas passagens que falam sobre o tema da justiça. Da mesma forma, a paz biblicamente falando está associada a justiça, não existe paz sem justiça, pois a paz é fruto da justiça, como afirma Isaías 32:17.

Em um outro texto quero continuar discorrendo sobre o tema do pobre e da pobreza na Palavra de Deus, para que o Espírito Santo nos ilumine e conceda sabedoria e graça para enfrentar a deturpação do Evangelho e nos leve de volta aos princípios da palavra profética, tão necessária nos tempos obscuros que estamos vivendo, pois a Bíblia nos ensina que a justiça não “cai do céu”, que ela é feita, é construída, é exercitada por nós em nosso dia-a-dia, através de nossas ações, das políticas públicas, dos programas e projetos que realizamos iluminados pelo Espírito da Graça e da Sabedoria que Deus nos concedeu.

Belém, outubro de 2018
Fidelis Paixão
Advogado, educador e pastor.